terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Amor e amizade


"A regra de ouro é essencial para viver em sociedade. Ela faz valer o respeito e a polidez, duas virtudes indispensáveis à vida comum. Entretanto, a vida interior de cada indivíduo não pode se limitar a essa virtude social. Ela não é suficiente para nos tornar felizes, pois aspiramos a relações com o outro baseadas não só no respeito e na benevolência, mas sobretudo no amor e na amizade, sentimentos que desabrocham no mais íntimo do nosso ser. Eles nos levam a estabelecer uma relação livremente escolhida e nutrem nossa alma, pacificam nosso corpo, rejubilam nosso coração. [...].As tradições espirituais e religiosas tendem a ver no amor um sentimento que devemos oferecer incondicionalmente a todos os seres, e não o apego particular que podemos sentir por uma pessoa específica. Ora, a amizade real entre dois indivíduos não é um vínculo pessoal com desconhecidos, com "o outro" indefinido, mas com o amigo que escolhemos e que nos acolhe. Aristóteles é um dos que levaram mais longe a reflexão sobre o que chama de "amizade perfeita", aquela que exige tempo, estabilidade, hábitos e paixões comuns, uma partilha dos prazeres, e que ele considera indispensável à felicidade do ser humano. [...].
Uma dimensão essencial da amizade, explicitada por Aristóteles, é a reciprocidade: com efeito, só existe real amizade se ela for recíproca: nós e o amigo que escolhemos devemos extrair o mesmo prazer de nossa relação, compartilhar realmente emoções e sentimentos, sem que nenhum dos dois se sinta obrigado a cultivar essa relação unicamente para agradar ao outro. Uma amizade vacilante não é uma autêntica amizade, e também é isso que a distingue da regra de ouro, que não implica necessariamente reciprocidade.
Recebemos a família como um legado e escolhemos os amigos. Entretanto, o amigo também pode ser escolhido no seio da família: é o irmão ou a irmã com quem temos um relacionamento especial, privilegiado, a quem gostamos de confidenciar nossas alegrias e tristezas. O amigo também pode ser o companheiro ou cônjuge. Com efeito, não creio que seja possível estabelecer uma autêntica relação amorosa entre dois amantes que não sejam amigos, pois a paixão não dura. [...]. Um dia o desejo diminui, o real retorna, descobrimos o outro tal como é. Se ele for um amigo, a paixão cede lugar a uma relação igualmente forte, a da "amizade perfeita" louvada por Aristóteles, e que está na própria base do amor real, pois é o encontro com "um outro si mesmo, que tem a função de fornecer aquilo que não podemos nos proporcionar por nós mesmos". O amor de amizade constitui, com efeito, uma dupla experiência de similaridade e complementaridade. Nós nos amamos porque nossas almas se assemelham. E também nos amamos porque o outro nos proporciona o que nos falta e que não podemos dar a nós mesmos". [...]".
 
LENOIR, Frédéric. Pequeno tratado de vida interior. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 97-100.
 
 
Amizade
Pintura de Gustave Caillebotte (1848-1894).


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