sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Abrir mão, renunciar


"O ato de abrir mão, de renunciar, é o oposto de querer-possuir, é a superação da era do sempre-mais. Temos dificuldade de renunciar porque nos identificamos com a propriedade, com o "que-podemos-adquirir". Essa identidade aparente, "sou - o que tenho", é um aspecto imaturo de nosso ego. Distanciar-se do consumo e da propriedade exige uma grande medida de disciplina e orientação em outros conteúdos vitais.
Uma frase pode ajuda-lo, e você pode dizê-lo ao ver coisas desejáveis: Há tantas coisas belas de que não necessito.
A maturidade espiritual de uma pessoa pode ser reconhecida no fato de ela conseguir se alegrar com a prosperidade dos outros e com os sucessos deles da mesma maneira que com os próprios. Se você se alegrar com as diversas flores nos campos primaveris e conseguir deixá-las ali para que os outros também possam se alegrar, você estará praticando o ato de abrir mão. Você descobrirá que a riqueza pode estar na renúncia. Ao descobrir a quantidade de coisas de que não necessita, você sentir-se-á rico. Experimentará a riqueza que já possui e a riqueza que a natureza e a vida lhe oferecem gratuitamente. Reconhecendo isso, você pode apenas agradecer. Gratidão por aquilo que realmente importa - como saúde, comer o suficiente, filhos, tarefas que valem a pena e coisas similares - abre-lhe o acesso a sua verdadeira riqueza.
Agradecer por tudo o que, diariamente, lhe está à disposição é um caminho efetivo e benéfico de abrir mão. Ao agradecer reconhecemos a riqueza que já temos.
Você tem o suficiente para comer? Suas roupas lhe oferecem suficiente proteção diante das condições do clima? Você é saudável e está sem dor? Você olha repetidamente para a abundância que tem e agradece por tudo?"
 
GRÜN, Anselm; ASSLÄNDER, Friedrich. Trabalho e espiritualidade: como dar novo sentido à vida profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. p. 74-75.
 
 


terça-feira, 27 de setembro de 2016

A felicidade só pode ser encontrada dentro de nós


"A liberdade é o único objetivo que tem valor na vida. Nós a conquistamos deixando de lado as coisas que estão fora de nosso controle. Não podemos ter o coração leve se nossas mentes são um poço lastimável de medos e ambições.
Você quer ser invencível? Então não lute com as coisas sobre as quais você não tem verdadeiro controle. Sua felicidade depende de três coisas que estão todas sob seu poder: sua vontade, suas ideias a respeito do acontecimento em que está envolvido e o uso que você faz de suas ideias.
A autêntica felicidade é sempre independente de condições externas. Pratique com o maior zelo a indiferença às condições externas. Sua felicidade só pode ser encontrada internamente.
Como é fácil ficarmos deslumbrados e sermos iludidos pela eloquência, pelos altos cargos e pelos títulos acadêmicos,  pelas grandes honrarias, pelos objetos elegantes, pelas roupas caras e pelas atitudes envolventes! Não cometa o erro de supor que as celebridades, as figuras públicas, os líderes políticos, os ricos ou as pessoas com grandes dotes intelectuais ou artísticos são necessariamente felizes. Supor tal coisa seria estar desnorteado pelas aparências e o levaria a duvidar de si mesmo.
Lembre-se: a verdadeira essência do bem só pode ser encontrada nas coisas que estão sob seu controle. Se você tiver sempre isto em mente, ficará muito menos vulnerável à falsa inveja ou à sensação de abandono comparando-se desprezivelmente aos outros e às suas realizações.
Pare de aspirar a ser outra coisa além do melhor de você mesmo. Porque isso está sob seu controle".
 
EPICTETO (c. 50 d. C. - 127 d. C.). A arte de viver. Interpretação de J. Sharon Lebell. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 87-88.
 
 
 


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Amizade


"As histórias boas nos convidam a entrar no papel de outras pessoas, passo crucial na aquisição da perspectiva moral. Histórias sobre a amizade exigem que se adote a perspectiva de amigo, da solidariedade com o outro.
Amizade é mais que afinidade e envolve mais que afeição. As exigências da amizade - franqueza, sinceridade, aceitar com a mesma seriedade as críticas e os elogios do amigo, lealdade incondicional e auxílio a ponto do sacrifício - são estímulos poderosos para o amadurecimento moral e o enobrecimento.
A amizade genuína requer tempo, esforço e trabalho para ser mantida. A amizade e algo profundo. De fato, é uma forma de amor".
 
 
 


 
 
O Urso e os Viajantes
 
 
Esopo
 
 
 
Dois viajantes encontraram um urso na estrada.
O primeiro subiu numa árvore e se escondeu.
O outro, apavorado, resolveu se jogar no chão e se fingir de morto. O animal chegou perto, cheirou as orelhas dele e foi embora. (Dizem que um urso não mexe com quem está morto). O que estava na árvore desceu e perguntou ao companheiro o que é que o urso tinha cochichado.
- Ele me disse para não viajar mais com quem abandona os amigos na hora do perigo.
 
 
É na dificuldade que se prova a amizade.
 
 
 
(LRM)
 

 

 
O LIVRO das virtudes: uma antologia de William J. Bennett. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. p. 179, 184.
 
 

 
 
 
 
 



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Escuta profunda


"Na maior parte do tempo, nossa mente está tão repleta de pensamentos que não temos espaço para ouvir a nós mesmos nem ninguém mais. [...].
Muitos de nós vivem sobrecarregados. Não parecemos ter espaço necessário para realmente ouvir e entender os demais. Pensamos muito enquanto trabalhamos oito ou nove horas diárias, sem parar, e praticamente nunca voltamos nossa atenção à respiração nem a nada mais, simplesmente pensamos. E acreditamos que, se queremos o sucesso, não podemos fazer outra coisa além disso. [...].
Quando falamos, claro que só dizemos o que nos parece certo. Porém, algumas vezes, por conta da maneira como falamos, o ouvinte não nos entende e nossas palavras não alcançam o efeito desejado, não esclarecem nem melhoram o entendimento da situação. E devemos nos perguntar: "Estou falando por falar ou estou falando porque acho que essas palavras podem ajudar a curar alguém?" Quando nossas palavras são ditas com compaixão, baseadas no amor e na atenção que devotamos à nossa interconexão, nossa fala pode ser classificada como correta.
Quando damos uma resposta imediata a alguém, em geral apenas vomitamos o que sabemos ou reagimos no calor da emoção. Quando ouvimos a pergunta ou o comentário de outra pessoa, não separamos um tempo para escutar e observar profundamente o que está sendo dito. Simplesmente devolvemos uma réplica imediata e impensada. E isso não é útil.
Da próxima vez que alguém lhe fizer uma pergunta, não a responda imediatamente. Receba a pergunta ou o comentário e permita que tais palavras penetrem em seu corpo, deixando claro a quem fala que ele ou ela foi verdadeiramente ouvido.[...]".
 
HANH, Thich Nhat. Silêncio: o poder da calma em um mundo barulhento. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016. p. 81-84.
 
 
 
Conversas
Pintura de Claude Monet (1840-1926)


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Rosas - Amor

Se Zeus quisesse oferecer às plantas
Uma rainha para o mundo das flores,
A rosa seria a escolhida
E faria erubescer a rainha de cada bosque.
Filha mais doce das manhãs orvalhadas,
Joia adornando o seio da terra,
Olho do prado, brilho dos campos,
Botão de beleza, afagada pelas alvoradas:
A alma suave do amor ela respira,
A testa da Cípria com mágica adorna;
E, às carícias turbulentas de Zéfiro,
Entrega suas verdejantes tranças
Até que, excitada com o luxuriante jogo,
Faz corar até a luz dos adivinhos.
 
Safo de Lesbos (c.600 a. C.)
A linguagem das flores,1989.
 
 
 



"A rosa é a flor do amor. Ela foi criada por Clóris, uma deusa grega das flores, a partir do corpo sem vida de uma ninfa que ela encontrou certo dia em uma clareira no bosque. Pediu ajuda de Afrodite, a deusa do amor, que deu à flor a beleza; Dionísio, o deus do vinho, ofereceu néctar para proporcionar-lhe um perfume doce e as três Graças lhe deram encanto, esplendor e alegria. Depois Zéfiro, o vento oeste, afastou as nuvens com seu sopro para que Apolo, o deus-sol, pudesse brilhar e fazer a planta florescer. E, desta forma, a rosa nasceu e foi logo coroada a Rainha das Flores".
 
A linguagem das flores. 1989.
 
 
 
Pintura de Albert Williams (1922-2010)


 
 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ser Bom


"Ser bom é olhar as coisas e as pessoas com os "olhos do amor". A criatura que aprendeu a ver tudo com bons olhos consegue perceber que todas as ocorrências da vida estão caminhando para uma renovação enriquecedora. No Universo nada acontece que não tenha uma finalidade útil e providencial.
As grandes dificuldades não significam castigos ou punições, mas caminhos preparatórios para se alcançar dentro em breve um bem maior.
O bondoso é sustentado por sua autoconfiança e estimulado por um impulso forte e desinibido a fim de concretizar ou construir ações altruístas. Possui uma aura de vitalidade que reúne uma preciosa e rara combinação de ternura e destemor.
A criatura bondosa domina a arte da sinceridade, pois, acima de tudo, é fiel consigo mesma. Por ter desenvolvido uma natureza benevolente, tem aspecto jovial e sociável, demonstra carinho pelas crianças, aprecia a fauna e a flora, enfim gosta das coisas da Natureza. Em sua relação com os outros, é uma boa ouvinte, sempre disposta quando pode ser útil, solidária e cordial.
Há uma diferença entre bondade e desatenção às necessidades pessoais. Ser bom não é ter uma vida associada à autonegação ou autonegligência, nem mesmo ajustar-se obsessivamente às exigências e necessidades dos outros. Acima de tudo, o bondoso conhece e defende os próprios direitos, ou seja, sabe cuidar de si mesmo.
Entretanto, cuidar de si não quer dizer eu antes de tudo, mas com certeza significa eu também. A expressão "cuidar de si" não deriva do egoísmo ou do orgulho, mas traduz o dever de amar a criatura que temos responsabilidade de amparar - nós mesmos. [...].
Uma das características marcantes de nossa sociedade é fazer constantes solicitações e exigências às outras pessoas. Um indivíduo que aprendeu a ver com os bons "olhos do amor" tem a habilidade de não se deixar "estimular orgulhosamente" pelas pessoas que o rodeiam, porque aprendeu a amar ou a desempenhar sua tarefa na Terra sem expectativas alheias.
A incapacidade de dizer "não posso", "não concordo", "não sei", "não quero" acarreta ao ser humano a perda de controle da própria vida. Isso, no entanto, não significa que deva dizer "não" a tudo, mas ter o direito de responder com franqueza quando lhe perguntam se gosta ou não de alguma coisa; em outras palavras, deixar o outro saber como ele sente e pensa.
Declarar de forma positiva e direta seus valores e propósitos é preservar sua dignidade e auto-respeito. Se uma pessoa não for capaz de pronunciar essa simples palavra "não" quando bem quiser, permitirá que outras pessoas a explorem sem parar, afastando-a daquilo que realmente pode e quer fazer.
"Aqueles que nos cercam" podem nos levar a elogios desmedidos. Não se pode confiar nos aplausos. Eles podem ser retirados a qualquer momento, não importa qual tenha sido nosso desempenho passado. A inconstância é um vício peculiar da massa comum. [...].
Aprender a ser uma pessoa saudavelmente generosa pode estar ligado a uma longa aventura na área da perseverança. Ser bom não quer dizer que devemos interferir ou ficar presos nos problemas dos outros. Muitos de nós ficamos envolvidos numa generosidade compulsiva - atos de bondade motivados por sentimentos de culpa, obrigação, pena e de suposta superioridade moral.[...].
Compaixão é um ato de elevada compreensão, em que reina a fidelidade consigo mesmo, o auto-respeito, o perdão e a bondade. Ser bom, em sua exata definição, é fazer escolhas ou tomar atitudes com compaixão, lançando mão da própria dignidade e, ao mesmo tempo, promovendo a dignidade alheia".
 
HAMMED (Espirito). A imensidão dos sentidos. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto. Catanduva, SP: Boa Nova Editora. 2000. p. 25-28.
 
 
Pintura de Charles Courtney Curran  (1861-1942).

 

 

domingo, 4 de setembro de 2016

A Explicação



"Tendo recobrado o bom humor, Elizabeth quis que Darcy explicasse por que se apaixonara por ela.
-Como isso começou? - perguntou. - Posso compreender como teria evoluído, depois de você ter dado um passo inicial. Mas o que poderia tê-lo inspirado, em primeiro lugar?
-Não posso precisar a hora, o local, ou o olhar, ou as palavras, que criaram a base. Faz muito tempo. Eu já estava no meio antes mesmo de saber que havia começado.
-À minha beleza você logo se opôs, e quanto às minhas maneiras... meu comportamento com você sempre beirou a incivilidade e eu nunca falei com você sem que minha primeira intenção fosse atormenta-lo. Agora, seja sincero; você me admirava por minha impertinência?
- Pela vivacidade de sua mente, sim.
- Pode chamar logo de impertinência. Não foi muito menos do que isso. O fato é que você estava cansado de civilidade, deferência, atenção formal. Estava desgostoso com as mulheres que sempre falavam, procuravam e pensavam apenas em sua aprovação. Eu o excitei e interessei pelo fato de ser tão diferente delas. Se você não tivesse uma natureza afável, teria me odiado por isso; mas, apesar de todo o esforço que fez para dissimular, seus sentimentos sempre foram nobres e justos; e, em seu coração, você desprezava totalmente as pessoas que com tanta assiduidade o cortejavam. Pronto, poupei-lhe o trabalho de explicar; e de fato, pensando bem, começo a achar que isso é perfeitamente razoável. Na verdade, você não conhece nada realmente bom de mim. Mas ninguém pensa nisso quando se apaixona".
 
Orgulho e Preconceito. Jane Austen (1775-1817)
 
 
 
 
Elizabeth e Mr. Darcy.
Orgulho e Preconceito. Jane Austen.
www.gallerily.com


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Leitura: um mergulho em outros mundos


"A leitura não é uma virtude. Mas ela faz parte de uma vida boa. Na leitura eu mergulho em outro mundo. Para muitos, a leitura é um lugar para retirar-se, onde ninguém as perturba e elas experimentam um mundo que lhes faz bem. Não é o mundo da utilidade e da serventia, mas um mundo no qual a alma ganha asas e se  alimenta. Na leitura entro em contato com outras pessoas: com o autor, seus pensamentos e sentimentos, e também com muitas outras pessoas, aquelas sobre as quais ele escreve. E na leitura encontro a mim mesmo: ao ler, entendo melhor a minha própria vida. E a vejo em um contexto maior. A palavra alemã lesen (ler)remonta a uma raiz que significa "juntar, ajuntar, reunir o que está espalhado". Não lemos apenas os livros, mas também as espigas e os cachos de uvas durante a colheita. Na leitura, reunimos os diferentes aspectos da vida humana. É como uma colheita. Eu colho os pensamentos de outras pessoas e de épocas anteriores para alimentar-me deles. Quem lê muito torna-se lido. E conhece bem a vida. Ele é culto, pois se confrontou com outras experiências.
A leitura é, em si mesma, um ato salutar. Nela mergulhamos em um outro mundo. E ela nos liberta do mundo que muitas vezes nos aflige e ameaça. Ela torna relativas a dureza, a estreiteza e a falta  de compaixão que eventualmente nos cercam. Enquanto leio, entro em contato também comigo mesmo, e isso já é algo de muito valor, mesmo quando eu não retenho muito do que li. No momento da leitura, entretanto, eu sou outro. Aí eu estou mais próximo de mim mesmo do que em outras situações. E quanto mais eu me aproximo de mim mesmo, maior é o sucesso da minha vida".
 
GRÜN, Anselm. Pequeno tratado do bem viver. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. p. 161-163. 
 
 
 
 Pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)