segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Soneto CXVI


Impedimentos não admito para a união
De corações fiéis; amor não é amor
Quando se altera se percebe alteração
Ou cede em ir-se, quando é infiel o outro amador.
Oh! não, ele é um farol imóvel tempo em fora,
Que as tempestades olha e nem sequer trepida;
É a estrela para as naus, cujo poder se ignora,
Malgrado seja a sua altura conhecida.
O amor não é joguete em mãos do tempo, embora
Face e lábios de rosa a curva foice abata;
Não muda em dias, não termina em uma hora,
Porém  até o final das eras se dilata.
Se isso for erro e o meu engano for provado,
Jamais terei escrito e alguém terá amado.
 
William Shakespeare (1564-1616)
 
SONETOS. Shakespeare, William. São Paulo: Hedra, 2008. p. 111.
 
 
 
Pintura de William John Hennessy (1839-1917)
 


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Caminhando juntos


"Ao longo do caminho, encontramos muitas pessoas. Nossos pais quase sempre lá estão, no começo, para nos dar uma mãozinha; e é bom, enquanto andamos, conversar com nossos amigos e entes queridos, partilhar o que nos inspira e, de vez em quando, recorrer a eles para apoio e orientação. Cuidamos uns dos outros, assumimos eventualmente o papel de guia e, às vezes, precisamos de ajuda para encontrar nosso caminho.
Bons professores, orientadores e amigos, se você tiver a sorte de encontra-los, devem ser convenientemente valorizados porque um bom amigo, cedo ou tarde, de um modo ou de outro, acabará ajudando-o a tomar o rumo certo. Direta ou indiretamente, ele o tornará uma pessoa melhor. Mesmo se você estiver agindo de maneira errada, ele o auxiliará a resolver problemas, banir ilusões e fortalecer sua autoconfiança. Então, a felicidade verdadeira brotará de dentro - de dentro de você. Eis o que se espera de um mestre ou amigo sincero. [...].
A amizade é tão importante que fico triste toda vez em que vejo amigos se desentendendo por ninharias. A boa companhia aumenta a  compaixão, a ternura, a sabedoria e a paz de espírito, fazendo diminuir o desejo, a inveja, o ódio e o orgulho.
Tome muito cuidado ao escolher amigos. Certas pessoas exercem influência positiva, outras não. Porém a influência dos amigos é sempre decisiva. Para mim, esse é o ponto crucial de todos os relacionamentos. Nossa intuição, quando nos encontramos com alguém, é muito forte, não importa que a pessoa seja completamente estranha ou conhecida há anos. Podemos, literalmente, sentir sua energia. É uma energia alegre ou triste? Calma ou agitada? Queremos dar a essa pessoa nosso afeto ou receber, contentes, o dela - ou  sentimos a necessidade de manter certa distância mental entre nós? Não desdenhe essa intuição: o corpo às vezes percebe melhor que a mente atarefada.[...].
Pessoas positivas costumam estar mais próximas da "natureza" do mundo, a qual respeitam profundamente. Respeitam também seus familiares, os animais, as árvores e as plantas - portanto, respeitam seus amigos. Quem não respeita a natureza dos outros quase nunca se respeita.[...]. Entretanto, se você conhecer alguém que cultiva o sentimento de compreensão, respeito-o, porque então se aproximará também da verdadeira natureza. Essas são as pessoas em quem sabemos que vamos encontrar abrigo, as pessoas que nos ajudam a acalmar nossa mente inquieta. Elas encarnam o espírito de encorajamento e por isso devem ser valorizadas".
 
DRUKPA, Gyalwang XII. Iluminação diária: o caminho para a felicidade no mundo moderno. São Paulo: Pensamento, 2013. p. 41-43.
 
 
 
 
 
Amizade
Pintura de Emil Brack (1860-1905)


terça-feira, 18 de outubro de 2016

O Discípulo

"Quando Narciso morreu, o lago de seu prazer transformou-se de receptáculo de águas doces em poço de lágrimas salgadas, e as Oréades vieram chorando pelo bosque cantar para o lago e dar-lhe conforto.
E quando viram que o lago havia se transformado de poço de águas doces em poço de lágrimas salgadas, soltaram as tranças verdes de seus cabelos, choraram pelo lago e disseram:
- Não nos admiramos de que chores desta maneira por Narciso, tão belo era ele.
- Mas Narciso era belo? - perguntou o lago.
- Quem saberia melhor que tu? - responderam as Oréades. - Por nós, ele sempre passava direto, mas tu ele procurava, e deitava-se às tuas margens e fitava-te, e no espelho de tuas águas admirava sua própria beleza.
E o lago respondeu:
- Mas eu amava Narciso porque, quando ele se deitava em minhas margens e olhava para mim, no espelho de seus olhos eu sempre via minha própria beleza refletida".
Oscar Wilde (1854-1900)
A LINGUAGEM do amor. São Paulo: Melhoramentos, 1994.
 
 
 
 
Pintura de Maxwell Armfield (1881-1972)
 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Lírio-do-vale - Volta da felicidade

Dói-me o coração e um torpor atormenta
Meus sentidos, como se da cicuta eu tivesse bebido,
Ou esvaziado nas veias algum opiato entorpecente
Apenas um minuto atrás, e me atirado no Lete:
Não é por inveja de tua felicidade,
Mas por demais alegrar-me com tua ventura -
Que tu, Dríade de asas ligeiras entre os arvoredos,
Em algum recanto melodioso
De verdes faias e inúmeras sombras,
Cantes, a plena voz, o verão.
 
Ode a um Rouxinol
John Keats (1795-1821)
 
 
 
 
"Não é surpreendente que o lírio-do-vale simbolize a volta da felicidade, uma vez que ele é a flor mais encantadora que se pode imaginar. Com suas delicadas campânulas brancas e inconfundível aroma cheio de frescor, acredita-se que ele atraia o rouxinol de seu ninho e o conduza à sua fêmea.
Ele é o símbolo da festa da primavera e era conhecido como lírio-de-maio (mês de primavera na Europa) e como lágrimas-de-nossa-senhora, pelo fato de ter brotado das lágrimas derramadas pela Virgem Maria ao pé da cruz. As flores foram cultivadas por monges para enfeitar o altar e eram chamadas de escada-para-o-céu porque as minúsculas flores em forma de campânulas crescem como degraus subindo pelo caule".
 
A LINGUAGEM das flores. São Paulo: Melhoramentos, 1989. p. 62-63.
 
 

 
Anônimo.
LINGUAGEM as flores. 1989.











sábado, 8 de outubro de 2016

Criatividade


"Conforme a excelência do pensamento de Voltaire, "o mundo me intriga, e não posso imaginar que este relógio exista e não haja relojoeiro".
A energia do Cosmo Universal produz de maneira constante as mais novas e admiráveis formas. Duzentas rosas amarelas são estruturalmente diferentes entre si, e num vasto canteiro de roseiras vermelhas nenhuma produz, no mesmo período, o mesmo número de botões e nem mesmo a exata configuração nas flores. Num país de milhões de habitantes do mesmo grupo étnico, cada um é dessemelhante e único. Essa é a criatividade originária das leis naturais ou divinas.
Em princípio, todos os homens podem criar. Os animais produzem, às vezes, coisas notáveis e surpreendentes, mas não criam, somente utilizam o instinto - indício da existência e desenvolvimento da criatividade em potencial. Os favos de mel, os ninhos dos beija-flores, a sociedade das formigas, as barragens dos castores vêm-se repetindo iguais desde a antiguidade babilônica, assíria e romana.
O ato de criar está intimamente ligado ao "senso de progresso" que existe em cada um de nós. Criar é a capacidade inata de desestruturar algo e reestruturá-lo em forma totalmente diferente e original. [...].
O homem só é capaz de modificar e moldar o mundo ao derredor se mudar sua própria concepção e conduta interior. Basta que ele transforme a si mesmo para ver o mundo a sua volta se alterar com ele. Atos e atitudes impulsionam as mais recônditas energias dos indivíduos, libertando-os ou aprisionando-os por meio das forças vivas e plasmadoras do pensamento. Cada pessoa vive em seu "mundo íntimo", e há tantos mundos quantas pessoas. Todos esses mundos são apenas fragmentos ou aspectos do mundo invisível. [...].
Tudo no Universo tem um aspecto divinamente criativo e educacional. Mesmo que não consigamos entender de momento essa causa, mais tarde tomaremos consciência de que era unicamente produto de nosso limitado estado de compreensão e discernimento evolutivo".
 
HAMMED (Espírito). Os prazeres da alma. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto. Catanduva, SP: ao Nova Editora, 2003. p. 163-167.
 
 
Pintura de Adolphe Alexandre Dillens (1821-1877)
 
 
 


domingo, 2 de outubro de 2016

Aceitando-se sem queixas


"Amar a si mesmo significa aceitar-se como alguém que tem valor porque decidiu ter valor. A aceitação significa também ausência de queixa: as pessoas que vivem plenamente jamais se queixam - não reclamam, especialmente, do fato de as rochas serem ásperas, do céu estar encoberto ou do gelo ser frio. Aceitação significa não reclamar, e felicidade significa não reclamar daquilo sobre o qual nada se pode fazer. A queixa é o refúgio daqueles que carecem de autoconfiança; o fato de falar aos outros sobre o que o desagrada em si mesmo dá a você a oportunidade de prolongar sua insatisfação, pois quem ouve não pode fazer praticamente nada a respeito, a não ser contradizê-lo, e você não acreditará nelas. Assim como queixar-se aos outros não leva a parte alguma, deixar que os outros abusem de você com cargas de infelicidade e autopiedade é algo que não ajuda ninguém. Com uma pergunta simples, é possível por fim a esse comportamento inútil e desagradável: "Por que você está me contando isso"? ou "Há algum modo de eu poder ajuda-lo nesse assunto? Fazendo a si mesmo essas perguntas, você começará a compreender seu comportamento lamurioso, reconhecendo-o como rematada idiotice. É tempo desperdiçado, que poderia ser mais bem-empregado na prática do amor a si mesmo por meio de diversas atividades, como, por exemplo, o autoelogio silencioso, ou então ajudando alguém a atingir sua própria realização. [...].
Queixar-se de si constitui atividade perfeitamente inútil, que o impede de viver plenamente; estimula a autopiedade e paralisa seus esforços no sentido de dar e receber amor. Além disso, reduz suas oportunidades de aprimorar relacionamentos amorosos e contatos sociais. Embora possa atrair atenção para você, a notoriedade conseguida provavelmente lançará sombras sobre sua felicidade.
Ser capaz de aceitar-se sem queixas envolve, ao mesmo tempo, a compreensão do amor-próprio e do processo de queixa, que se excluem mutuamente. Se você realmente ama a si mesmo, queixar-se a pessoas, que nada podem fazer torna-se uma atitude absolutamente insustentável. E você percebe, em si e nos outros, aspectos que o desagradam, dedique-se à tomada ativa das medidas necessárias, em vez de se lamentar.
Da próxima vez em que estiver numa reunião entre casais, experimente o pequeno exercício a seguir: observe que porção de conversa se gasta em lamentações - sobre as pessoas, os acontecimentos, os preços, o tempo, etc. Depois, quando a reunião estiver terminada e cada um seguir seu próprio caminho, pergunte a si mesmo: "Que parcela da lamentação desta noite serviu para alguma coisa?", "Quem realmente se importa com as nossas queixas?" Então, da próxima vez que se vir prestes a queixar-se de algo, recorde a inutilidade daquela noite".
 
DYER, Wayne W. Seus pontos fracos. 33. ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2013. p. 60-62. (Essenciais  BestSeller).
 
 
 
 
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