quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Leitura: um mergulho em outros mundos


"A leitura não é uma virtude. Mas ela faz parte de uma vida boa. Na leitura eu mergulho em outro mundo. Para muitos, a leitura é um lugar para retirar-se, onde ninguém as perturba e elas experimentam um mundo que lhes faz bem. Não é o mundo da utilidade e da serventia, mas um mundo no qual a alma ganha asas e se  alimenta. Na leitura entro em contato com outras pessoas: com o autor, seus pensamentos e sentimentos, e também com muitas outras pessoas, aquelas sobre as quais ele escreve. E na leitura encontro a mim mesmo: ao ler, entendo melhor a minha própria vida. E a vejo em um contexto maior. A palavra alemã lesen (ler)remonta a uma raiz que significa "juntar, ajuntar, reunir o que está espalhado". Não lemos apenas os livros, mas também as espigas e os cachos de uvas durante a colheita. Na leitura, reunimos os diferentes aspectos da vida humana. É como uma colheita. Eu colho os pensamentos de outras pessoas e de épocas anteriores para alimentar-me deles. Quem lê muito torna-se lido. E conhece bem a vida. Ele é culto, pois se confrontou com outras experiências.
A leitura é, em si mesma, um ato salutar. Nela mergulhamos em um outro mundo. E ela nos liberta do mundo que muitas vezes nos aflige e ameaça. Ela torna relativas a dureza, a estreiteza e a falta  de compaixão que eventualmente nos cercam. Enquanto leio, entro em contato também comigo mesmo, e isso já é algo de muito valor, mesmo quando eu não retenho muito do que li. No momento da leitura, entretanto, eu sou outro. Aí eu estou mais próximo de mim mesmo do que em outras situações. E quanto mais eu me aproximo de mim mesmo, maior é o sucesso da minha vida".
 
GRÜN, Anselm. Pequeno tratado do bem viver. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. p. 161-163. 
 
 
 
 Pintura de Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)


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