terça-feira, 12 de julho de 2016

A Beleza



"[...]. Contemplar a natureza e deixar-se tomar pelo sentimento  de admiração a que dá origem em nós é uma experiência  que nos transporta às vezes literalmente para fora de nós mesmos. Será que temos consciência de que essa beleza se encontra em toda parte? Nada na natureza é feio. A feiura pertence apenas ao mundo humano. Essa beleza nos é proporcionada gratuitamente; ao passo que certas pessoas pagam fortunas para adquirir obras de arte às vezes de uma feiura assustadora. Será que sabemos abrir os olhos, abrir o coração para identificar a beleza ao nosso redor, diante de um simples por do sol ou de um raio de luz passando pelas folhas de uma árvore? Mas também no sorriso de uma criança ou no rosto de um velho? Caminhando pela cidade ou virando numa esquina, diante de uma bela porta? Será que sabemos deixar-nos comover por um olhar, por uma harmonia musical capaz de abalar nossa vida interior? [...].
A beleza sempre é para mim fonte de felicidade. Uma fonte acessível, pois me basta abrir os olhos para ver ao seu redor, ouvir uma música que me encante, deixar-me penetrar por esse sentimento que surge então em ondas e que é tão bem descrito pelos poetas, uma espécie de união com o mundo. A poesia e a música, provavelmente mais que quaisquer outras artes, nos revelam com as palavras do coração e a harmonia dos sons a beleza oculta do mundo. [...].
Um quadro, uma foto, uma imagem, uma palavra, um corpo, um rosto, uma nota musical bastam para trazer alegria ao cotidiano, para vivenciar esse transportamento da alma que no século I de nossa era foi qualificado como "prazer divino" pelo poeta Lucrécio.
"A beleza salvará o mundo", profetizava Dostoiesviski. Certamente é um exagero, mas ela com certeza o torna mais suportável, às vezes revelando a verdade".
 
LENOIR, Frédéric. Pequeno tratado da vida interior. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 163-167. 
 
 
Pintura de Pierre Joseph Redoute, 1827
 


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